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Por trás da batina

Umuarama testemunhou o Evangelho em cada gesto do Padre José Carlos Parra Pires

Servo de Deus e em processo de canonização, ele fez da própria vida uma prece viva, espalhando esperança onde o mundo mais precisava

Publicado em 15/04/2025 às 17:50
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Ordenado sacerdote em 1988, José Carlos iniciou ali uma trajetória que deixaria marcas profundas nas comunidades por onde passou (Foto: Divulgação )

Pois tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e me deram de beber; fui estrangeiro, e me acolheram.” - Mt 25:35.

Servir é mais do que um gesto. É uma escolha diária. É olhar para o outro com empatia, abrir mão do conforto para aliviar a dor alheia, fazer da escuta um abrigo e das mãos um instrumento de cuidado. Em um mundo movido por urgências e individualismos, servir ao próximo tornou-se um ato de resistência, de fé concreta e vivida no cotidiano.

É nessa dimensão profunda do serviço, onde a vida se torna oferta e a fé se traduz em ação, que se inscreve a história de um homem cuja presença marcou gerações. Não pelo título que carregava, mas pela forma como caminhava ao lado dos outros, especialmente dos mais esquecidos.

Servir ao próximo foi o norte da vida do padre José Carlos Parra Pires. Muito além dos altares e cerimônias, ele se fez presente onde mais doía, onde mais faltava, onde poucos chegavam. Com um coração aberto à compaixão e uma vida marcada pela simplicidade e pelo desapego, ele conquistou seu lugar de destaque como um verdadeiro amigo dos pobres, conselheiro dos aflitos e guia espiritual de uma comunidade inteira.

Para além de um sacerdote, agora, ao mesmo tempo em que a Igreja reconhece oficialmente sua trajetória com o processo de canonização, Umuarama — e todos os que cruzaram seu caminho — se volta à lembrança do homem que, com humildade, viveu o Evangelho dia após dia.

Ordenado sacerdote em 1988, José Carlos iniciou ali uma trajetória que deixaria marcas profundas nas comunidades por onde passou. Atuou em duas importantes cidades da região — Umuarama e Alto Piquiri —, levando com ele uma missão centrada não somente na fé, mas no acolhimento e na promoção da dignidade humana.

Um de seus sonhos mais simbólicos foi a criação da Casa do Andarilho, um espaço que serviria de abrigo e acolhimento para as pessoas em situação de rua. Embora o projeto não tenha sido concluído, por conta de sua transferência para a cidade de Alto Piquiri, ele deixou um traço indelével: a rua onde a construção chegou a ser iniciada foi batizada com seu nome, em reconhecimento ao amor e à dedicação que empenhou naquela causa.

Um homem do povo

A presença de padre José Carlos não se limitava ao altar. Ele atravessava as celebrações e chegava até a casa das pessoas, o coração das famílias, os encontros mais simples e, ao mesmo tempo, mais sagrados do cotidiano. Sua espiritualidade era vivida com naturalidade, no gesto de sentar à mesa, partilhar uma música ou abençoar uma aliança de noivado.

Rosilda Gonçalves Ferreira de Lima, moradora de Umuarama, recorda com emoção os dias em que conviveu com ele. “Ele ficou um ano e três meses na catedral, a gente se aproximou muito”, conta. “Minha irmã Rosângela cantava e tocava, eu também participava do grupo de jovens e cantava nas missas. Por estarmos na liturgia, ficamos ainda mais próximas dele.”

As memórias são de uma relação marcada pela proximidade, carinho e simplicidade. “Ele vinha aqui em casa, almoçava com a gente, principalmente aos domingos. Lembro do dia em que fiquei noiva — ele veio, abençoou nossas alianças, ficou conosco. Eu tinha feito uma sobremesa de coco… ele amou”, relembra, sorrindo.

Mas não era apenas a amizade que deixava marcas. Era a forma como ele se entregava ao outro, sem distinções. “Ele podia estar com um morador de rua, um pai de família ou um prefeito — o abraço era o mesmo. Ele era muito cativante, jovem, cheio de energia. Caminhava conosco.”

Rosilda ainda se emociona ao falar das missas de cura, realizadas às quartas à noite e quintas à tarde, que atraíam pessoas até de outras cidades. “Ele fazia imposição de mãos, orava por nós. Muita gente dizia que saía curada. E não era só o milagre físico, era a presença de Deus que a gente sentia nele.”

Mais do que registros fotográficos, ficaram gravadas em sua memória experiências de fé vividas de forma profunda e verdadeira. “Não fotografei, não registrei, mas dentro de mim isso vive, porque eu convivi com ele. E isso, talvez, seja mais importante do que qualquer imagem. O que eu sentia… a presença de Deus que a gente sentia nele.”

Além das palavras

Jesus Cristo, ao longo de sua vida pública, cativou multidões não apenas pelos milagres que realizava, mas pela maneira como olhava cada pessoa nos olhos e enxergava sua dignidade, independentemente de sua condição. Seus ensinamentos iam além das palavras: estavam presentes no modo como se aproximava dos marginalizados, acolhia os pecadores, lavava os pés dos discípulos e partilhava o pão.

Jesus inspirava confiança, despertava fé e transformava vidas pela força do amor e da verdade que carregava. Aqueles que o ouviam e o encontravam sentiam algo que transcendia: uma paz profunda, um consolo inexplicável, a certeza de estar diante de algo divino. É essa mesma sensação que a mãe de Rosilda, Dionísia de Lima Gonçalves, carinhosamente conhecida como Dona Diola, descreve ao relembrar seus momentos com José Carlos.

“Quando eu o via, quando conversava com ele, sentia o espírito de Jesus, como se estivesse falando com ele mesmo”, confidencia. Para ela, a presença do padre transcendia a figura de um líder religioso. Era como se, em sua simplicidade e acolhimento, o próprio Cristo se fizesse presente — não em grandes discursos, mas na escuta atenta, no abraço sincero, na luz que irradiava de seus olhos.

Entre os muitos relatos que cercam a memória de padre José Carlos Parra Pires, alguns ganham contornos quase místicos, como se o ordinário se curvasse diante de algo maior. Um velho fusca, companheiro fiel de tantas visitas e atendimentos pastorais, certa vez teria funcionado mesmo sem gasolina, surpreendendo quem estava por perto.

Em outro episódio, uma motocicleta ligou e rodou normalmente, embora as chaves não estivessem no contato. Para quem o conheceu de perto, esses acontecimentos não parecem lendas — são pequenos sinais da urgência com que ele vivia sua missão.

Como compartilha Rosilda, ele era sempre apressado, direto, como quem sabia que o tempo era curto, que havia pressa em cumprir aquilo que lhe foi confiado. Suas palavras eram breves, seus passos firmes, sua entrega total. Era como se soubesse, lá no fundo, que logo seria chamado para outra missão — uma que já não se cumpre neste mundo.

Entre mães e filhos

Desde os primeiros anos de vocação, padre José Carlos cultivava uma relação profunda de afeto com a mãe, Dona Encarnação. Essa ligação o acompanhou ao longo da vida e marcou também outros relacionamentos. Sônia Maria Carlos Evangelista, por exemplo, conheceu a mãe do padre ainda jovem, e, através dela, aproximou-se de José Carlos — uma amizade que se fortaleceu durante a gestação de sua filha Lívia, afilhada do sacerdote.

Mesmo já no seminário, ele fazia questão de visitar Sônia com frequência, especialmente quando soube que ela enfrentava complicações na gravidez. O cuidado e a atenção que demonstrava iam muito além do gesto sacerdotal — eram expressão de um carinho concreto e sincero. Quando Lívia nasceu, José Carlos hesitou em aceitar ser padrinho da criança. A razão? Um sentimento de responsabilidade tão genuíno quanto doloroso.

Segundo contou Dona Encarnação, ele teria dito: “Mamãe, eu não vou conseguir acompanhar essa neném. Um padrinho é como um pai. Eu não sei se vou conseguir estar presente.” Foram necessárias três tentativas de visita a Sônia, em que ele não a encontrou, até que concluiu: “Acho que é pra eu batizar essa neném.” E assim fez, em um momento que ficou marcado para sempre na memória da família.

A vida seguiu, e anos depois, quando Lívia já estava na faculdade, Sônia enfrentou dificuldades financeiras e não tinha como pagar duas mensalidades da filha. Sem saber da situação, Dona Encarnação a chamou para tomar um café e, ao final da visita, entregou-lhe um embrulho simples, desses feitos com papel de pão, que costumava guardar debaixo da cama. “Entrega pra neném”, disse.

Sônia, achando que se tratava de uma quantia simbólica, só abriu o pacote dentro do ônibus — e se emocionou ao perceber que era exatamente o valor necessário para quitar as mensalidades. “E ninguém sabia dessa história, principalmente ela. Mas era a quantia exata”, contou, comovida. A promessa feita por José Carlos de que sua bênção acompanharia sua afilhada se concretizava, agora, de uma forma quase milagrosa — como se ele, mesmo após a partida, continuasse zelando por aqueles que amava.

A última missão

Mesmo depois da morte, padre José Carlos parecia continuar presente, de maneira suave e misteriosa, na vida das pessoas que amou. Para Sônia, isso se manifestou de forma inesquecível no dia de seu velório, quando o corpo foi trazido de Alto Piquiri para Umuarama.

Ela lembra que, ao chegar à catedral, desceu a escadaria com o coração apertado, mas sua principal preocupação não era consigo mesma, e sim com Dona Encarnação. “Minha comadre sofreu muito na vida, você não faz ideia. Eu falo que ela seria uma outra santa, de tanto que aquela mulher sofreu.” Sônia conta que, ao passar pelo caixão em direção à mãe do padre, tudo pareceu parar. O cortejo fez uma pausa. E foi nesse instante, entre o silêncio e a dor, que algo extraordinário aconteceu.

“Ele disse pra mim assim, eu escutei a voz dele: ‘Comadre… ’ Aquele susto. Aí ele disse: ‘Comadre, cuida da minha mãe.’” Assustada, mas tomada por uma certeza que não sabia explicar, ela respondeu: “Sim, eu cuido.” E então, como se uma cena em câmera lenta voltasse a se mover, o cortejo seguiu seu rumo.

Momentos assim não se explicam com facilidade. São experiências que tocam o sagrado e se eternizam na memória de quem as vive. Para muitos, padre José Carlos Parra Pires não foi apenas um sacerdote, mas uma manifestação viva do amor de Deus. E mesmo agora, em processo de canonização, ele continua presente — nos gestos de solidariedade que inspirou, na fé que despertou e no cuidado que segue exercendo, mesmo além da vida.

Casa em que José Carlos viveu

Estava escrito

A espiritualidade de padre José Carlos não nasceu com a ordenação sacerdotal. Ela já estava presente em sua juventude, moldada por um coração sensível e um olhar sempre atento à dor do outro. O diácono Valdecir Rodrigues da Costa, que conviveu com ele ainda na juventude, relembra com carinho de quando trabalharam juntos, em novembro de 1980, numa empresa de Umuarama.

Valdecir Rodrigues da Costa - Diácono e colega de trabalho

Memórias

Eu trabalhava como montador de móveis e ele como gerente. Havia um armário com uma entrada por trás, onde ele tinha um oratório. Vi com meus próprios olhos: ele de joelhos, rezando e meditando a Palavra de Deus.

Valdecir Rodrigues da Costa - Diácono e colega de trabalho

Esse compromisso com o Evangelho, já tão vivo antes mesmo de vestir a batina, também se manifestava em pequenos e grandes gestos no dia a dia. Valdecir lembra de outro episódio, quando José trabalhava em uma loja na região da Praça Arthur Thomas, em Umuarama. Um cliente atrasou parcelas de uma geladeira por dificuldades financeiras. A diretoria ordenou que o eletrodoméstico fosse tomado. José Carlos se recusou. Pagou do próprio bolso as parcelas em atraso.

Carteira de trabalho de Valdecir, que conta com uma assinatura de José Carlos

Partida prematura, mas um novo começo

No dia 20 de abril de 1990, aos 32 anos, padre José Carlos perdeu a vida em um acidente de trânsito na PR-681, entre Alto Piquiri e o distrito de Paulistânia. A comoção foi imediata. Pessoas que antes buscavam seus conselhos, já pediam sua intercessão. No local do acidente, ergueu-se uma capelinha feita por voluntários.

O que era dor, tornou-se altar de esperança. Inúmeros testemunhos de graças alcançadas continuam a ser relatados, inclusive por fiéis de outras dioceses. No dia 9 de fevereiro de 2021, a Igreja abriu oficialmente o inquérito diocesano de sua canonização. Desde então, seu nome percorre o caminho dos santos. Mas, para o povo, ele já era santo em vida.

José Carlos Parra Pires nasceu em Maringá, no dia 12 de agosto de 1954, filho de Pedro Pires e Encarnação Parra Muro Pires. Filho único do segundo casamento da mãe, cresceu rodeado de fé e acolhimento. Tornou-se conhecido por oferecer conselhos que confortavam, e por celebrar a Eucaristia com intensidade e entrega. Hoje, mais do que nunca, continua a viver na memória, nos corações e na fé daqueles que o conheceram.

Fonte: Portal da Cidade Umuarama

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