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Tendência global

Vida noturna perde força em Umuarama à medida que hábitos saudáveis ganham espaço

De boates a beach clubs esportivos, como o comportamento social da Capital da Amizade se transformou nos últimos anos?

Publicado em 27/09/2026 às 10:52

Como polo universitário, a cidade vivia de gente nova chegando toda hora, e a noite tinha fôlego, até que a pandemia trouxe significativas mudanças (Foto: Reprodução)

Teve um tempo em que Umuarama era chamada de "Mulherama". O apelido dizia menos sobre uma característica isolada e mais sobre o que a cidade representava: um point. Polo universitário que atraía gente de toda a região, Umuarama tinha uma noite generosa em opções. Dava para escolher entre o rolê família, balada, mesa de bar com amigos de infância ou a festa que só terminava quando o sol já estava alto. Cada dia da semana tinha sua cara.

As festas universitárias, então, eram praticamente um calendário à parte. Repúblicas, calouradas... Não faltava pretexto para reunir gente nova numa cidade que recebia estudantes de todo canto do Paraná e de fora dele. Só que, gradualmente, esse cenário começou a se transformar e, ao contrário das festas, não foi da noite para o dia.

Pedágio, um clássico.

Há cerca de um ano, estive em uma conversa com Francisco Cartaxo, superintendente do Shopping Palladium Umuarama. Nosso papo ocorreu lá mesmo, numa bela sala de reuniões. Após falarmos sobre interesses profissionais, a conversa se tornou mais informal e, então, trocamos algumas ideias sobre a economia e o comércio umuaramense. Algo que ele, um profissional de longa data no setor, disse naquele dia ficou na minha cabeça: "Umuarama não é uma cidade com vida noturna."


A primeira resposta de qualquer um fará referência ao período da pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022. Ainda que seja inevitável — e certamente um dos fatores primordiais das mudanças na vida noturna —, não é a única coisa. Acima de tudo, essa percepção deriva de uma tendência global das novas gerações, e finalmente estamos sentindo essa mudança aqui, neste pedaço de interior.

Bem antes da pandemia, existia um mundo. Um tal de Pimenta Doce era uma das principais atrações. O Whiskrytório já estava na ativa. O Sucão by Night e Coração de Estudante eram dois aposentados dessas estradas. O tempo passou, vieram a Evolve, a roxinha ZomoZone. Mas as pessoas continuavam lá: o fim de semana começava na sexta às 18h e terminava no domingo, quando o Fantástico se encerrava. As pessoas se comportavam de um jeito que hoje já não se vê mais.

É uma quarta-feira, fim de tarde. 16 de setembro. Proprietário do Whiskrytório há cinco anos, Ronaldo nos recebe em seu novo endereço. Agora, o bar fica na baixada da avenida Londrina, não mais na Maringá — onde ficava estrategicamente ao lado da Unipar. Ali mesmo, em uma cadeira de plástico, nós conversamos e ele confirma uma hipótese que meu cinegrafista já havia levantado no caminho.

As mudanças na vida noturna de Umuarama não vieram só da pandemia em si, mas também de uma transformação mais ampla nos hábitos da população: a popularização do wellness. Cada vez mais gente tem trocado a noite pela corrida, pela alimentação equilibrada e por rotinas consideradas mais saudáveis. Não apenas entre os jovens, mas principalmente entre eles.

"Na Maringá, por causa da Unipar, o movimento era muito mais de jovens. Agora, aqui na Londrina, o público é praticamente todo adulto", conta Ronaldo.

Parecia óbvio. Estava debaixo do meu nariz. Mas eu não tinha percebido que a resposta não estava na pandemia em si, mas nos efeitos depois dela e no fato de que as gerações mudam, o tempo passa, e o que naqueles tempos era visto como status e valor social, agora é exatamente o oposto disso.

Hoje, o Whiskrytório decidiu sair de perto da Unipar e teve uma mudança em seu público. O Edikúlas conta com pedágios para garantir um movimento maior — daqueles que bloqueiam a rua —, mas isso ocorre pontualmente, não sempre. Gummyzada? Calourada? Já é Jóia? Parece uma memória jovem, mas que já está se apagando. Monkey's, o Corvo, Mr. Tchay, Jeremias, se foram. O Rancho, Gelorama e Cabotiá seguem. Há público, mas não é como já foi.

Vikings dos velhos tempos

"A população pegou o costume de fazer eventos particulares em casa, alugando chácaras e contratando grupos de pagode ou sertanejo para reunir os amigos. Hoje Umuarama não sustenta mais uma casa de shows grande. O antigo Ximbas até tentou reativar isso, mas não teve sucesso. O que a gente vê hoje são só coverzinhos aqui e ali", diz Jhonatan André numa rápida entrevista via Whats com o nosso cinegrafista. Ele hoje mora em Marechal Cândido Rondon, mas viveu na pregressa noite umuramense. 

Em 2019, Edmílson Júnior teve a oportunidade de tocar um beach club que viria a ser o primeiro do ramo em Umuarama, o BTU. Meses depois ele também precisou lidar com a pandemia, mas era o começo de um tipo de negócio que se tornaria febre na cidade. Acompanhando a mudança no comportamento da comunidade, num beach club dá pra comer uma porção, tomar uma Heineken, flertar, ouvir um som.

Porém, tudo isso está vinculado à prática esportiva. Seja o futevôlei, o beach tennis, o vôlei de areia e afins. Atualmente, ele dirige o Isla Beach Sports que, olha só, fica próximo ao Campus III da Unipar. Enquanto esperamos por ele, é inevitável perceber a quantidade de mães e crianças no local, junto a professores. São impressionantes 490 alunos ativos no clube.

Para Júnior, os cuidados com a saúde são o principal fator dessa mudança. "Hoje as pessoas ainda consomem bebidas alcoólicas, o público gosta de socializar em festas com música, mas os cuidados com a saúde estão presentes, a ponto de não entrarem madrugada adentro nas festas", explica. Os mais jovens, segundo ele, agora correm no domingo de manhã e mantêm hábitos de cuidado com a saúde que não existiam numa geração pré-pandemia — aquela que saía na sexta à noite e só voltava no domingo à noite.

Só para ter certeza da situação, eu precisava falar com os chefões finais da cultura wellness umuaramense: a gangue da corrida, ou melhor, a Running Gang. Os fundadores são Victor Hugo Vargas, Cleidiane Dias e Caio César Rodrigues. Os dois últimos nos receberam na tarde nublada de quinta-feira na Praça Itália.

Focada em conectar pessoas por meio da corrida de rua, eventos, música e bem-estar, a Running Gang é a comunidade esportiva mais disruptiva de Umuarama. Pelo nome, eu pensei que se tratava apenas da corrida, mas Caio logo explica sobre a pedalada, escalada, artes marciais, yoga e hiking. Caio é muito claro na sua visão. Não só corrobora sobre a mudança de mentalidade da geração, mas também explica sobre o pertencimento que tanto atrai os membros.

No dia 12 de abril deste ano, em um domingo agradável e ensolarado, a Running realizou a Ultra Coffee Party, no câmpus III da Unipar. Inspirado em movimentos internacionais de festas matinais sem consumo de álcool, o evento reuniu 750 participantes — na estimativa de Caio, a maior coffee party do Brasil. Aqui, em Umuarama.

A programação começou às 6h30, mas a galera já havia chego com antecedência. Cafeteria, DJs, alongamento coletivo. Em seguida, uma corrida de 5km pela cidade, acompanhada por scooters elétricas que levavam caixas de som para manter o ritmo dos participantes. Ao retornarem para a Unipar, o espaço se transformou em uma celebração que durou até as 9h30, com open de café espresso, ativações de marcas parceiras e dois palcos com DJs.

"É uma mudança gigantesca de mentalidade. Aquele mesmo pessoal que antes só saía para beber, hoje é o tipo de jovem que tem hora certa para dormir, cuidar do físico, se alimentar bem e ter um bom descanso. Com o ambiente digital, tudo se acelerou: a informação chega até você num piscar de olhos e a conexão com novas pessoas ou grupos é praticamente instantânea. E, no fundo, o que as pessoas buscam hoje é exatamente isso — esse sentimento de pertencer a algo bom", diz Caio, orgulhosamente.

Pertencimento é a palavra.

Ele continua, agora falando sobre o que motiva essa geração a compartilhar sua rotina:

"As pessoas querem mostrar que transformaram suas vidas, querem sentir orgulho disso. No fim das contas, postar o print do Strava nos stories, que muitos pensam ser apenas uma forma de exibir status, na verdade é exibir uma conquista pessoal, algo importante que compartilhamos entre si."

Mais analítica e observadora, Cleidiane complementa o raciocínio do sócio, trazendo a pandemia de volta ao centro da conversa. "Todo mundo teve que se isolar, ficando sozinho e solitário em casa. Agora, estamos vendo o resgate dessa necessidade de comunidade, desse sentimento de pertencer. Os nossos treinos juntam facilmente mais de 20 pessoas, e quando a atividade acaba, ninguém quer ir embora. O pessoal quer ficar conversando, tomar uma água, um Gatorade. Não existe mais aquele papo de 'vamos sair para beber'. Se for para sair, é para comer um espetinho, tomar um suco."

E arremata com uma lógica que resume bem o espírito da nova noite umuaramense — ou melhor, da nova manhã. "O jovem de hoje entendeu a matemática da alta performance: ele sabe que, se beber hoje, o rendimento dele amanhã vai ser péssimo e o corpo vai levar dias para se recuperar."


Nós adoramos fazer comparações. Minha geração isso, minha geração aquilo, como se houvesse uma disputa. Há quem tenha carinho ao recordar de quando era adolescente e virava a noite com muitas garrafinhas de Askov, um litro de catuaba Randon, Schweppes e energéticos à rodo. Há quem esteja vivendo sua juventude (ou mudança de mentalidade) agora e prefira um isotônico, sais minerais, cafeína, proteína e cama às 21h30.

"Umuarama não é uma cidade com vida noturna." Bem, depois de conversar com Ronaldo, com Júnior, com Caio e Cleidiane, entendo que a frase não estava errada — mas também não estava inteiramente certa. Umuarama não perdeu a vida noturna. Ela mudou da madrugada para o amanhecer, do copão para a garrafinha de água, da pista de dança para os 5km de asfalto.

Essa mudança não é um um capricho de uma cidade do interior do Paraná. A economia global do wellness atingiu, em 2024, a marca histórica de US$ 6,8 trilhões em movimentação financeira. As projeções apontam que esse mercado trilionário deve alcançar US$ 9,8 trilhões até 2029. No Brasil, o wellness já movimenta cerca de US$ 125 bilhões, garantindo ao país a liderança isolada na América Latina e a 11ª posição no ranking mundial.

Tudo isso traz novas possibilidades para o comércio e a economia da cidade. Coisas novas podem surgir — cafeterias que viram ponto de encontro, negócios de beach sport, clubes de corrida que ocupam o espaço que antes era das casas noturnas. Do lado do consumidor, também há novas exigências, misturadas com as novas tendências sociais. E, ao contrário das projeções pessimistas, quem sabe a nova geração não traga uma nova versão da velha Umuarama.


  • Um agradecimento especial a todos os representantes da Running Gang, sendo eles Nathalia Louise, Wesley Polita, Gustavo Coutinho, Mariana Oliveira, Lucas Aragão, Kaoane Ogawa, Vinicius Augusto, Amanda Camargo, Gui Perissato, Emanuelly Perissato, Karol Milaré, Danilo Martinussi, Danilo Canno, Corvo Produtora, Thais Oliveira, Danni Darkko, Louis Avilla, Ana Lilla, Heloisa Oliveira, Kaique, Luiza, Kauan Balieiro, Evelyn e Herick. 

    E também a Ronaldo (do Whiskrytório) e Júnior (do Isla), que reservaram parte de seu tempo a nossa equipe. 

Fonte: Lucas Chagas/Portal da Cidade Umuarama

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