Portal da Cidade Umuarama

Gostinho mineiro

Quando o café, de verdade, passa a fazer parte da história de uma família

Lucas e Thalita construíram uma vida na cidade e encontraram no café especial um interesse capaz de aproximar diferentes etapas de sua trajetória

Publicado em 11/10/2026 às 10:27
Atualizado em

Lucas, Thalita e Paulinha: uma trajetória marcada por mudanças, laços familiares e o interesse pelos cafés especiais (Foto: Portal da Cidade Umuarama/Gabriel Rocha)

Uma mudança de cidade, duas trajetórias profissionais e o desejo de construir uma vida em comum. A história de Lucas e Thalita começou nos pacatos cantos do interior de Minas Gerais, atravessou novos caminhos em Umuarama e, com o tempo, ganhou mais um capítulo.

Juntos há 17 anos e casados há dez, eles aprenderam a conciliar diferentes projetos ao longo da vida. Lucas é professor de Agronomia na Universidade Estadual de Maringá (UEM), enquanto Thalita é formada em Administração. Além da carreira e da rotina familiar, os dois encontraram no café uma afinidade que acabou se tornando uma atividade empreendedora.

A trajetória, no entanto, começou muito antes de existir um negócio.

Uma vida construída entre Minas Gerais e Umuarama

Lucas e Thalita se conheceram durante o período em que estudavam em Lavras, no sul de Minas Gerais. A formação acadêmica abriu caminhos profissionais, mas também marcou o início de uma história que, anos depois, os levaria para a terra vermelha do Paraná.

Em agosto de 2016, Lucas se mudou para Umuarama após ser aprovado para lecionar na UEM. Alguns meses depois, em fevereiro de 2017, Thalita veio para a cidade para acompanhar a mudança do marido. A adaptação a um novo lugar significou reconstruir referências, estabelecer vínculos e encontrar, na rotina, elementos que lembrassem a terra de origem. Para Thalita, uma dessas referências sempre esteve presente na relação com o café.

Natural de Varginha, município conhecido pela produção cafeeira, ela cresceu familiarizada com a cultura do produto. Seu pai plantava café, e essa proximidade fazia parte de suas lembranças muito antes de ela compreender as diferenças entre os tipos de grãos e os métodos de preparo.

O interesse ganhou outra dimensão em 2014, quando trabalhava em Carmo de Minas e conheceu mais de perto o universo dos cafés especiais. A qualidade da bebida e as diferenças percebidas na xícara despertaram uma curiosidade que permaneceu com ela.



No meu papo com ela, foi inevitável não perguntar sobre o caso mais famoso de Varginha, o do ET, registrado em 1996. Thalita conta que conhece pessoas relacionadas ao caso e afirma ter ouvido relatos sobre profissionais de um hospital que teriam assinado termos de confidencialidade. Ela não relata ter presenciado o episódio diretamente, mas atesta: era sim um alienígena.

Agora, de volta para o café.


A descoberta de que o café vai muito além da bebida

O contato de Thalita com os cafés especiais despertou o interesse em conhecer melhor o que existe por trás de uma xícara. A formação de Lucas em Agronomia também contribuiu para que o casal observasse o produto a partir de outra perspectiva: a do cultivo, da seleção dos grãos e das condições que influenciam a qualidade.

Em sua aula para nossa equipe, o Lucas explica que o café não é um produto uniforme. Espécie, variedade, clima, altitude, maturação dos frutos, colheita, secagem, armazenamento e torra alteraram o resultado final. São etapas que ajudam a explicar por que duas bebidas feitas a partir de cafés diferentes podem apresentar aromas, sabores e texturas bastante distintos.

"Entre as espécies comerciais mais conhecidas estão o Coffea arabica, ou arábica, e o Coffea canephora, que inclui os cafés conhecidos como conilon e robusta. Em linhas gerais, o arábica costuma apresentar maior diversidade de notas sensoriais, enquanto o canéfora tende a ter mais corpo e cafeína. Essas diferenças, porém, dependem também das condições de produção e processamento", diz ele enquanto nos serve uma xícara.

A seleção dos grãos é outra etapa importante. Frutos colhidos antes do ponto ideal de maturação, grãos danificados e falhas no processamento podem comprometer a bebida. Mesmo um lote bem selecionado exige atenção durante a torra, quando o controle inadequado pode prejudicar características que foram preservadas nas etapas anteriores.

Conhecer esse processo mudou a maneira como o casal enxergava o café. A bebida cotidiana passou a representar também o trabalho de produtores, as particularidades de cada região e as decisões que determinam o resultado final.

Uma ideia que começou dentro de casa

Quando se estabeleceram em Umuarama, Lucas e Thalita sentiram falta de uma oferta de cafés especiais semelhante àquela com que haviam se familiarizado em Minas Gerais. Por algum tempo, um presente de casamento ajudou a diminuir essa distância: dez quilos de café especial recebidos na ocasião. Mais tarde, uma nova viagem a Minas, com visitas a pequenos produtores do interior, fez o casal considerar a possibilidade de trazer esses produtos para outras pessoas na cidade.

A ideia amadureceu no fim de 2020. De volta a Umuarama, eles começaram de maneira simples, distribuindo pacotes de café a cerca de 30 conhecidos. A intenção inicial era compartilhar a experiência, apresentar os grãos e descobrir como outras pessoas reagiriam à bebida. Não havia uma estrutura comercial elaborada.

Os produtos eram guardados em uma pequena despensa no apartamento em que moravam, em um edifício chamado Minas Gerais — olha aí, que coincidência. O projeto era uma atividade paralela, movida pela curiosidade e pela vontade de dividir algo de que gostavam. Mas os primeiros contatos abriram espaço para que a ideia continuasse.

Novas escolhas

O empreendimento que nasceu desse interesse recebeu o nome de Florada Mineira. Como a rotina de todo pequeno empreendedor, as dificuldades são maiores que os louros. Em 2023, diante de resultados abaixo do esperado, eles chegaram a cogitar outros caminhos. Foi nesse período que as indicações espontâneas de clientes e parceiros começaram a ampliar o alcance do projeto.

Uma sugestão feita por um cliente de Icaraíma, no segundo semestre daquele ano, levou à criação de um clube de assinatura. O formato se tornou a principal frente da iniciativa e, atualmente, reúne 68 clientes ativos. O episódio marcou uma mudança na organização do negócio. Em vez de depender apenas de compras pontuais, o casal passou a contar com consumidores que mantêm uma relação recorrente com os produtos.

A divulgação também ocorreu de maneira diferente daquela frequentemente associada ao empreendedorismo digital. Recomendações pessoais, conversas e experiências compartilhadas ajudaram a aproximar novos consumidores. Com o tempo, segundo a trajetória relatada pelo casal, alguns clientes se tornaram amigos (mas muitos amigos não se tornaram clientes).

Família, trabalho e projetos em comum

Em janeiro de 2025, Lucas e Thalita tiveram a primeira filha, Paula. A chegada da criança acrescentou uma nova dimensão à rotina familiar, que já precisava conciliar a carreira universitária, a administração da casa e o desenvolvimento do empreendimento.

Lucas continuou atuando como professor de Agronomia na UEM, enquanto o projeto com os cafés permaneceu como uma atividade construída em conjunto com a esposa. São responsabilidades diferentes, mas que fazem parte da organização de uma vida compartilhada ao longo de quase duas décadas.

A experiência dos dois também mostra que um projeto empreendedor nem sempre começa com a intenção de se tornar a principal atividade profissional. Às vezes, ele surge de uma afinidade, cresce a partir das relações estabelecidas e passa a ocupar um espaço próprio na rotina.

No caso de Lucas e Thalita, o café conecta diferentes momentos da trajetória: as referências da infância em Minas, a formação acadêmica, a mudança para Umuarama, as viagens, a vida familiar e o contato com pessoas que passaram a compartilhar o mesmo interesse.

A Florada Mineira é hoje parte dessa história, mas não resume a trajetória do casal. Antes de se tornar um empreendimento, o projeto foi uma maneira de manter vínculos com suas origens e de criar novas conexões na cidade que escolheram para viver.



  • Além da xícara — Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), o consumo de café no varejo brasileiro cresceu 4,65% entre maio e agosto de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O setor havia registrado queda de 2,31% no volume consumido em 2025, enquanto o faturamento da indústria avançou 25,6%, chegando a R$ 46,24 bilhões.
  • O café em números — A expansão também aparece no número de empreendimentos ligados à bebida. Um levantamento do Sebrae aponta que o Brasil chegou a cerca de 482 mil empresas ativas no segmento de cafeterias e negócios de café, após um crescimento de 38% entre 2020 e 2025. O cenário ajuda a dimensionar o espaço conquistado pelo café na economia e na experiência dos consumidores, embora a trajetória de cada negócio dependa de fatores próprios, como qualidade, relacionamento com o público e capacidade de adaptação.

Fonte: Lucas Chagas/Portal da Cidade Umuarama

Envie sua notícia

Participe do grupo do Portal da Cidade no WhatsApp