Portal da Cidade Umuarama

Um franciscano bispo

Expoente da fé em Umuarama, Dom João Mamede reflete sobre o seu legado na comunidade

Prestes a completar 75 anos e aguardando renúncia no Vaticano, prelado recebeu o Portal da Cidade para uma conversa sobre fé, intelectualidade e futuro

Publicado em 25/07/2026 às 16:40
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Dom João Mamede concedeu entrevista exclusiva sobre a sua trajetória e legado (Foto: Portal da Cidade Umuarama/Gabriel Rocha)

Nesta sexta-feira (24), a residência episcopal em Umuarama abriu suas portas em um tom de serena contemplação. Às vésperas de atingir os 75 anos — idade em que o Direito Canônico estabelece a apresentação do pedido de renúncia ao Papa — Dom Frei João Mamede Filho recebeu a equipe do Portal da Cidade Umuarama para uma entrevista exclusiva.

Com a calma de quem compreende a fluidez do tempo e os ciclos da Igreja, Dom João sintetiza sua essência espiritual na frase “eu não sou um bispo franciscano, sou um franciscano bispo”. Para ele, o bispado é uma função temporal e um serviço prestado à instituição, mas o carisma franciscano é a sua identidade.

Uma longa jornada

Para compreender o pastoreio de Dom João Mamede, é preciso voltar ao século XIII e traçar um paralelo com o “Poverello” de Assis. Enquanto a história muitas vezes idealizou São Francisco entre os campos e os eremitérios, a tradição dos Frades Menores Conventuais — ramo ao qual Dom João pertence desde o seu ingresso formal na Ordem, em 1974 — desenvolveu-se no coração pulsante das cidades medievais.

Historicamente, enquanto os ramos dos Frades Menores e dos Capuchinhos nasceram mais voltados para a itinerância rural e para o isolamento dos montes, os Conventuais fincaram raízes em conventos inseridos diretamente nos tecidos urbanos.

Nascido em Caçapava (SP), a 21 de agosto de 1951, sua formação dividiu-se entre a educação pública e o rigor das casas de estudo franciscanas, construindo uma sólida base humanística. Sua ordenação presbiteral ocorreu em 21 de abril de 1978, pela imposição das mãos de Dom Cláudio Hummes, O.F.M. — figura que deixaria uma marca em sua visão eclesial e social.

Durante 28 anos como presbítero, transitou entre o cuidado pastoral, a administração de bens provinciais e a docência. Em 2006, o Papa Bento XVI o nomeou bispo auxiliar da megacidade de São Paulo. A transição do interior para a maior metrópole da América Latina moldou sua capacidade de diálogo. Sob o lema episcopal “In Evangelio virtus Dei” (“No Evangelho força de Deus”, inspirado em Romanos 1, 16), atuou como Vigário Episcopal da Região Lapa até 2010.

A chegada e vida em Umuarama

Em 24 de novembro de 2010, Bento XVI o transferiu para a Diocese de Umuarama, vacante desde a partida de Dom Vicente Costa. Na sua carta de aceitação enviada à Nunciatura Apostólica, a postura de entrega já antecipava o tom de sua missão:

“Respondo que assumo, com todo o coração e toda a alma, a incumbência de pastorear, como Bispo, a Diocese de Umuarama, que desde já, mesmo sem conhecê-la, amo intensamente”.

A posse solene ocorreu em 12 de fevereiro de 2011, na Catedral Divino Espírito Santo, diante de mais de duas mil pessoas e dezenas de prelados. Ao assumir uma das dioceses do noroeste paranaense, Dom João encontrou uma organização viva, mas que atravessava uma transição cultural.

Em sua reflexão sobre esse período, o bispo traça um diagnóstico agudo da contemporaneidade. Na infância, entre as montanhas da Serra da Mantiqueira, a fé se sustentava na tradição orgânica. As famílias se ajoelhavam juntas ao redor da mesa no jantar para rezar. No campo e na roça, o encontro humano e o divino aconteciam quase de forma natural.

O grande desafio do pastoreio moderno, segundo ele, foi transpor essa essência para a vida urbana. Em entrevista para a Diocese de Umuarama, Dom contou sobre sua chegada a Umuarama. “Encontrei uma Igreja viva, organizada. Hoje, vejo que o desafio continua sendo fazer com que o Evangelho toque de verdade a vida das pessoas. Talvez a dificuldade maior esteja na vida da cidade, onde todo mundo está perto, mas nem sempre se encontra de verdade. Se não tiver uma experiência real de Deus, partilhada, tudo fica meio vazio”.

Para Dom João, a vivência cristã nas cidades contemporâneas exige uma postura de vanguarda. “Quem vive o Evangelho está um passo à frente. Está vivendo hoje aquilo que, um dia, vai se mostrar essencial para todo mundo. Muitas coisas que parecem importantes acabam não sustentando a vida de verdade. O Evangelho, não. Por isso, vale a pena gastar a vida com isso.”

Razão, teologia e história

Por trás do olhar sereno de franciscano, há um intelectual refinado. Durante a entrevista ao Portal da Cidade Umuarama, Dom João aprofundou a dimensão teológica da existência, afastando a fé de qualquer sentimentalismo ingênuo.

Para ele, a teologia é a expressão racional da fé. A dimensão intelectual não tem a pretensão de responder a todas as dúvidas existenciais ou preencher cada lacuna da vida, mas funciona como uma bússola: é o que permite ao ser humano enxergar por qual caminho pode caminhar com firmeza.

Para ilustrar a perenidade da Igreja, o bispo recorre a uma poderosa perspectiva histórica: o Império Romano, a maior e mais portentosa criação da engenharia político-militar humana, colapsou e se esfacelou sob o peso de suas próprias contradições. A Igreja Católica, no entanto, atravessou as ruínas de Roma, superou as tempestades dos séculos e permanece de pé. Ela se mantém — e se manterá — porque não se apoia exclusivamente em estruturas humanas, mas na força viva do Evangelho.

Dever cumprido

Aproximando-se da aprovação de sua carta de renúncia pelo Vaticano, Dom João demonstra o que define como “suprema tranquilidade”. Longe de encarar o momento com saudosismo ou apego ao cargo, ele enxerga o término de seu mandato como parte do ciclo natural da vida católica.

Quando questionado sobre o legado que deixa para a região — coroado publicamente pelo título de Vulto Emérito, concedido pela Câmara Municipal de Rondon em 26 de junho de 2026 —, o bispo prefere rejeitar a vaidade da palavra “legado”. Para ele, não existe um monumento pessoal a ser erguido. Existiu, sim, o cumprimento estrito do dever para com a fé e a comunidade.

Sob sua liderança, a Diocese de Umuarama viu a ordenação de 30 novos padres e a celebração de incontáveis crismas. Ele também demonstrou sua capacidade de gestão eclesial ao assumir a administração interina da Arquidiocese de Maringá em momentos de profundas mudanças. Contudo, para Dom João, os números e os títulos são secundários:

Dom Frei João Mamede Filho

Ciclo

O propósito está na palavra, não no indivíduo. O grande artefato deixado nessa jornada é que a Igreja continue como um centro na vida das pessoas e da comunidade, num exercício eterno da fé.

Dom Frei João Mamede Filho

Ao se despedir do governo pastoral de Umuarama, Dom Frei João Mamede Filho deixa a marca da integração entre a sensibilidade da palavra, o cuidado com a natureza e comunidade e o rigor teológico. Ele honrou as raízes rurais dos pioneiros da região e conduziu a diocese com inteligência pastoral para os desafios do século XXI.

Sua mensagem final para a comunidade de Umuarama é uma prece e, na verdade, um convite para que mesmo longe, sua visão continue a ser desenvolvida. “Rezo para que nossa missão na Igreja cresça e permaneça.”

Dom João despede-se da cátedra episcopal, mas não do seu carisma. Como o frade de Assis que caminhava pelas ruas falando ao coração dos homens, o franciscano bispo encerra seu ciclo em Umuarama com a certeza de quem combateu o bom combate, deixando o Evangelho — força de Deus — como a única rocha inabalável sobre a qual a comunidade deve continuar a se edificar.

Fonte: Lucas Chagas/Portal da Cidade Umuarama

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