Recomeço
Sobrevivente de tragédia no Harmonia, João Paulo fala sobre fé, perda e gratidão
Após duas cirurgias e dias de internação, contador se recupera em casa e relembra o acidente que tirou a vida do amigo Rafael Paião, em Umuarama
Publicado em
29/10/2026 às 11:34
Atualizado em
No dia 29 de setembro, a vida de João Paulo Siqueira dos Santos, de 41 anos, mudou em questão de segundos. O que deveria ser mais um momento de descontração, jogando tênis com amigos no Harmonia Clube de Campo, em Umuarama, transformou-se em uma tragédia que deixou marcas físicas e emocionais que ele levará para sempre.
Durante o vendaval que atingiu a cidade, com rajadas superiores a 100 km/h, uma estrutura desabou na área esportiva do clube. João Paulo e o advogado Rafael Paião, de 42 anos, tentaram correr em direção ao portão da quadra para escapar, mas não conseguiram chegar a tempo. O muro caiu sobre os dois. Rafael morreu ainda no local, enquanto João Paulo sofreu ferimentos graves e precisou lutar pela própria vida.
Exatamente um mês depois, o contador recebeu a equipe do Portal da Cidade em seu escritório. A reportagem encontrou um homem que ainda convive com as consequências do que viveu, carrega a saudade de um amigo querido, mas também demonstra gratidão pela oportunidade de continuar vivendo e pelo apoio recebido ao longo de todo o processo.
“Naquele dia, eu estive muito perto de perder a vida. E, infelizmente, perdi um grande amigo”, resume.
Os segundos do desabamento
Segundo João Paulo, os dois estavam na quadra quando a estrutura começou a ceder. “Nossa primeira reação foi correr em direção ao portão para sair da quadra. Era uma tentativa desesperada de escapar, mas não conseguimos chegar a tempo. O muro caiu sobre nós dois”, lembra. “No momento em que o muro me atingiu, perdi a consciência.”
O que veio depois, ele diz, é difícil de explicar. “Quando comecei a retomar a consciência, percebi que já estava saindo debaixo dos escombros. Tenho uma sensação muito forte de que, naquele primeiro momento, não era eu quem estava fazendo aquilo. Senti como se algo divino estivesse me tirando de lá. Como se Deus estivesse me dando uma segunda oportunidade de viver.”
Mesmo com várias costelas quebradas, o pulmão perfurado e a clavícula fraturada, ele continuou se arrastando até sair. Deitou-se no chão logo na saída da quadra, tentando entender o que acontecia, mas notou estruturas metálicas por perto e reuniu forças outra vez para chegar a um banheiro ao lado. Lá encontrou um amigo, que o ajudou. A visão estava comprometida. “Eu enxergava praticamente só um clarão”, conta. Pouco depois chegaram o Corpo de Bombeiros e o Samu, que iniciaram o atendimento.
A perda de Rafael
Se o corpo se recupera com cirurgias e fisioterapia, a ausência do amigo, diz João Paulo, não tem tratamento. “Existe uma dor que nenhuma cirurgia consegue curar. Perdi meu amigo Rafael Paião. Foram aproximadamente dez anos de amizade, de convivência e de momentos compartilhados.”
Ele fala da culpa de quem ficou e da gratidão de estar vivo. “É muito difícil aceitar que estávamos juntos naquele momento e que hoje eu estou aqui contando essa história, enquanto ele não teve a mesma oportunidade. É uma mistura de tristeza, saudade e gratidão.” E completa: “Não existe maneira de falar desse acidente sem lembrar do Rafael.”
João Paulo também deixou uma mensagem à família do amigo. “Quero deixar meu carinho e meus sentimentos. Sei que nenhuma palavra será capaz de diminuir essa dor.”
UTI, duas cirurgias e alta
Depois do resgate, João Paulo foi levado ao Hospital Nossa Senhora Aparecida, onde ficou na UTI de terça a quinta-feira. Na terça, recebeu um dreno no pulmão. Na quinta, foi transferido para Maringá, porque precisava de uma cirurgia complexa.
A primeira operação foi na sexta-feira (2 de outubro) e durou cerca de quatro horas. Foram colocadas placas em três costelas. Segundo ele, uma das fraturas estava em região delicada, com um fragmento ósseo a cerca de um centímetro do coração. “Quando soube disso, tive ainda mais consciência da gravidade de tudo o que havia acontecido.”
Na terça-feira seguinte (6), passou por uma segunda cirurgia, para corrigir a fratura da clavícula, também com colocação de placa. Na noite desse procedimento, teve um novo pneumotórax e precisou trocar o dreno. “Foram dias de muita dor, preocupação, incerteza e superação”, resume.
Recebeu alta no sábado, 10 de outubro. Desde então faz fisioterapia pulmonar e segue em recuperação. “Cada pequena evolução é uma vitória”, diz.
“Minha família foi minha força”
Ao lado dele em todo o processo estiveram a esposa, Kelly, e os pais. Segundo João Paulo, ela dividiu cada momento, da internação às cirurgias. “Minha esposa e meus pais estiveram comigo desde o primeiro momento. Não me deixaram sozinho, acompanharam cada dificuldade, cada procedimento, cada cirurgia e cada notícia que recebíamos. Não tenho palavras suficientes para agradecer.”
Ele reconhece que a família também sofreu. “Sei da angústia de me verem naquela situação e da preocupação de não saberem o que poderia acontecer. Mas estavam ali, firmes, me dando amor, carinho, cuidado e força.”
Também recebeu mensagens de amigos, parentes e de desconhecidos que fizeram uma oração ou enviaram palavras de apoio. “Talvez essas pessoas não tenham ideia do quanto isso significou para mim. Em momentos como esse, a gente percebe que não está sozinho.”
Agradecimento aos profissionais de saúde
João Paulo fez questão de nomear quem participou do tratamento. Agradeceu à médica Nayara Paganini, do Hospital Nossa Senhora Aparecida, que, segundo ele, agiu com rapidez diante da gravidade do quadro e foi decisiva para a transferência a Maringá.

Também citou os médicos Marcos Bitencourt e Maurício Lemos, responsáveis pela cirurgia de quatro horas, e as equipes dos dois hospitais: médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas. Estendeu os agradecimentos ao Corpo de Bombeiros e ao Samu.
“Cada atendimento, cada cuidado e cada gesto de atenção fizeram diferença na minha recuperação. A todos vocês, minha eterna gratidão.”


O que mudou
Para o contador, a experiência alterou a forma de enxergar a rotina. “Existem momentos em que a gente percebe o quanto a vida é frágil. Em questão de segundos, tudo pode mudar. Eu entrei naquela quadra sem imaginar que poderia não voltar para casa.”
Ele diz que ainda tenta entender, emocionalmente, o que viveu. “Ainda estou me recuperando fisicamente e tentando compreender tudo. Essa recuperação leva tempo. Apesar da gratidão por estar vivo, existe a tristeza profunda pela perda do Rafael.”
Ao final da conversa, deixou um recado a quem lê. “A vida é muito mais frágil do que imaginamos. Abrace sua família, valorize seus amigos, diga que ama as pessoas enquanto tem oportunidade. Não deixe para amanhã o que realmente importa.” Sobre o amigo, concluiu: “A amizade que construímos durante esses dez anos não termina com a partida dele. Vou guardar nossas lembranças para sempre onde quer que você esteja.”
Fonte: Portal da Cidade Umuarama
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