Ao mestre...
Amário Vieira da Costa, o homem que ensinou Umuarama a treinar para a vida
Professor, técnico e pai, ele dedicou sua história à educação e ao esporte, deixando um legado que segue vivo nos cidadãos que ajudou a formar
Publicado em
13/06/2025 às 17:51
Atualizado em
Na cadência de quatro palavras repetidas como um mantra — “Treino, treino, treino, treino” — Amário Vieira da Costa sintetizava não somente sua filosofia esportiva, mas também sua forma de viver e educar. O bordão, entoado tantas vezes nas quadras de Umuarama, ultrapassava a mera repetição técnica ou instrução. Na verdade, era um chamado à superação, à disciplina e ao compromisso com o próprio potencial.
Foi assim que seu nome, inscrito na fachada do principal ginásio esportivo de Umuarama, se tornou querido e rememorado por uma geração de seres humanos, além de atletas. Professor de Educação Física, técnico de handebol, instrutor de fanfarra e verdadeiro mentor de jovens, Amário é lembrado por seu rigor pedagógico, paixão pelo esporte e um afeto profundo que transbordava em cada treino.
Paulo Henrique Cray da Costa, seu filho, irmão de Mário (o mais velho) e João (o caçula), recebeu a equipe do Portal da Cidade Umuarama para contar um pouco da história do homem que se tornou referência tanto pela capacidade técnica quanto pelo comprometimento pessoal com seus alunos. Com ênfase, orgulho, saudade e um pouco de lágrimas, fica claro que Amário entendeu seu propósito nesta vida e, mesmo com o tempo curto e injusto, foi capaz de cumpri-lo.
“A vida é dura; seja aço; seja uma rocha.
E isso pode prepará-lo para as tempestades…”
— Poema de Carl Sandburg, “Um pai para seu filho”
“Os atletas eram como filhos para ele, todos”, recorda Paulo. “Ele dividia o tempo entre a família e a bola. Às vezes nem estava em casa no meio da semana. Minha mãe sentia essa falta, dizia que ele era casado com a bola.” Apesar disso, Paulo cresceu ao lado do pai nas quadras. “Ele me levava junto, meu irmão também jogava. Era firme, mas presente. Quando ele olhava pra você, já sabia o que ele queria dizer. Com os atletas era igual: bastava um olhar.”
Amário mudou-se ainda jovem para Umuarama, onde construiu toda sua trajetória profissional. Cursou Educação Física em Curitiba, viajando semanalmente em longas jornadas entre a capital e o noroeste do Paraná, conciliando estudos e trabalho. Chegou a dar aulas em Pérola e outras cidades da região.
A partir de 1978, Amário mergulhou no handebol, modalidade em que formou seleções escolares e municipais, e depois estaduais. Em 1982 e 1983, comandou a seleção paranaense que conquistou o título dos Jogos Estudantis Brasileiros em Brasília. “Ele trouxe o handebol para o interior do Paraná. Correu atrás, fez curso, montou time, transformou a realidade de Umuarama”, lembrou Paulo.
Ao lado de Aurora, sua esposa e companheira de vida, via em Umuarama, cidade ainda jovem e promissora, um campo aberto para educadores que acreditavam no poder do esporte como uma arma de transformação. E foi isso que ele fez: transformou. Como professor em escolas da rede pública e estadual, Amário logo se destacou pelo olhar exigente e pelo coração generoso.
Amário formou equipes competitivas, comprometidas, vibrantes. “Vi ele dizer: ‘Você é mais homem do que isso, bora mastigar essa bola’. O cara entrava em quadra e virava outro. Acreditava porque ele acreditava.” E o mantra ecoava em todos os cantos da quadra: “Treine, treine, treine, treine”.
A frase simples se tornava código de honra, filosofia de vida. “E servia pra tudo. Se você não aprendeu ainda, treine. Se a vida tá dura, treine. Se a finta não sai, treine.” Em casa, a disciplina não era menor. “Ele era um pai presente, mas rígido. Se passava do limite… Mas com amor, com presença. A gente sabia que era cuidado.” Aurora, a esposa, sentia a ausência dos muitos dias e noites em que o marido estava com os times. “Mas era também da bola que ele trazia o sustento da casa. Era do esporte que vinha o pão”, diz Paulo.
Para Paulo, no entanto, a presença do pai estava em todos os lugares. Ele e o irmão eram levados aos treinos, assistiam aos jogos, viviam nos bastidores das vitórias e das derrotas. “A quadra era a nossa sala de estar. Meu pai ensinava ali o que era esforço, o que era honra, o que era perder com dignidade e vencer com humildade.”
Assim se construiu a figura de Amário. Um educador que formava pelo exemplo, que cobrava porque amava, que repetia quatro palavras simples como quem entrega um mapa da vida. Dedicou-se a formar equipes com estudantes da cidade e a levar o nome de Umuarama aos Jogos Escolares e aos campeonatos regionais.
Buscou capacitação em centros mais desenvolvidos, como São Paulo e Rio Grande do Sul, onde participou de cursos com alguns dos principais nomes do esporte na época. “Ele não parava”, relembra Paulo. “Estava sempre estudando, lendo, anotando coisa em caderno, conversando com outros professores…”.
Como atleta de voleibol, representou Umuarama com destaque em várias edições dos Jogos Abertos do Paraná. Já no comando de equipes, destacou-se como técnico de handebol do Colégio Estadual e da seleção municipal, levando suas equipes a diversas competições, sempre com resultados expressivos. Seu reconhecimento ultrapassou os limites da cidade. Amário foi também técnico da seleção paranaense de handebol, com a qual conquistou o título dos Jogos Estudantis Brasileiros, disputados em Brasília, por dois anos consecutivos, um feito raro para o esporte do estado.
Nos anos 1980, foi nomeado secretário municipal de Indústria e Comércio, período em que liderou a criação do parque industrial e acompanhou cada estaca do ginásio que mais tarde receberia seu nome. “Ele estava lá de domingo, na chuva, com os operários. Ele fez aquele ginásio existir”, afirmou o filho.
Mas o legado de Amário foi interrompido de forma trágica. Em 14 de maio de 1988, ele sofreu um acidente de moto, no cruzamento da avenida Apucarana com a Paraná, quando teve a traseira da moto atingida por um carro em alta velocidade.
Usava capacete, um hábito raro na época, mas o equipamento não estava afivelado e se soltou no impacto. Amário bateu a cabeça no meio-fio e foi socorrido ao antigo Hospital Rio de Janeiro, depois transferido ao Hospital Cemil. Ficou cerca de 72 horas em coma, mas não resistiu. Tinha apenas 38 anos.
“A cidade parou”, relembra o filho. “Foi como uma despedida do Ayrton Senna. Comércio fechou, uma comoção que nunca mais vi igual.” Na época, o então vice-prefeito Alexandre Ceranto tentou viabilizar transporte aéreo para levá-lo a Curitiba ou São Paulo, mas a gravidade do trauma impediu a remoção. A morte de Amário deixou um vazio imenso, não só para a família, mas para centenas de alunos e atletas que o viam como um verdadeiro mestre de vida.
Amário se foi e, por mais que a história tenha sido longa até aqui (mesmo que não tenhamos contado nem metade dela), o professor tinha apenas 38 anos de idade. Sua passagem foi como um cometa — breve, intensa, marcada por luz própria. Um desses raros fenômenos que não apenas atravessam o céu, mas transformam o olhar de quem os testemunha. O professor viveu em pulso acelerado, como quem intuía que o tempo seria curto.
Cada aula, cada treino, cada conversa no portão da escola, cada anotação num caderno amarelado, carregava uma urgência: formar pessoas. Ele sabia que estava moldando caráter, entregando a jovens e crianças algo que o tempo não roubaria. Era como se cada encontro precisasse valer por dois. E valeu.
Não é exagero dizer que Amário foi mais que um técnico, mais que um professor. Foi um iniciador, desses que acendem em outros uma centelha que não se apaga. Com a morte de Amário, foi-se mais que um homem. Uma parte de Umuarama também se foi, pois, perdemos uma de nossas almas mais vibrantes.
E desde então, tentamos, a cada geração, recuperar o brilho de outrora. Muitos tentaram. Técnicos, professores, atletas. Houve empenho, houve vontade. Mas sem o professor Amário, não é a mesma coisa. Faltava aquele olhar que via além do placar, que enxergava no treino uma lição de vida. Faltava o homem que, ao mesmo tempo em que cobrava com firmeza, abraçava com generosidade. A chama que ele acendeu parecia ameaçar o fim.
Mas algo ainda nos move.
Sim, algo ainda pulsa no coração da cidade. Uma vontade tímida, mas insistente, de voltar a ser protagonista. Uma memória que se recusa a morrer. E essa memória tem nome. Tem quadra. Tem história. É a chama acesa por Amário, que ainda arde nas mãos daqueles que ele formou, nos sonhos das crianças que vestem a camisa de Umuarama, nos projetos que insistem em brotar mesmo com recursos escassos.
Que a cidade se lembre do mestre. Que olhe para o passado não com saudosismo, mas com responsabilidade. Honrar Amário não é apenas citá-lo. É agir à altura do que ele acreditava. É investir, é acreditar, é formar. Porque Umuarama ainda carrega, em algum lugar entre as traves e os bancos escolares, o sopro daquele cometa. E que esse sopro, se bem-ouvido, ainda pode nos ensinar a voar.
Fonte: Portal da Cidade Umuarama
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